Acredito que todo ser humano nasceu com uma capacidade profunda de amar a si mesmo, ao outro e à vida. Mas algo acontece no caminho. A correria da vida, as feridas da existência e as exigências do mundo vão, aos poucos, estreitando essa capacidade. E muitas pessoas chegam ao fim da vida sem ter experimentado, de verdade, o que é amar e ser amado.
O psicólogo John Powell nos lembra que a necessidade humana mais fundamental não é ser amado pelo outro, mas desenvolver um amor genuíno por si mesmo; ou seja, aquela sensação tranquila e profunda de que é bom ser quem eu sou. Parece simples. Mas, para muitos, esse é o maior desafio da vida.
Nossa cultura nos
ensinou, de formas sutis e nem tão sutis, que falar bem de si é soberba; que
celebrar as próprias conquistas é arrogância; que reconhecer e atender às
próprias necessidades é egoísmo. O resultado? Muita gente cresce acreditando
que o amor-próprio é um luxo ou, pior ainda, um problema de caráter. A
Psicologia, porém, aponta em outra direção: não é possível amar o outro de
forma saudável sem antes aprender a amar a si mesmo. Não é possível oferecer
acolhimento genuíno a quem não sabe acolher a si próprio. O amor ao próximo tem
raízes, e essas raízes estão dentro de nós.
Existe também uma
diferença importante sobre a qual poucos param para refletir. Gostar, em geral,
é condicional. Melhor dizendo: gostamos de alguém pelo que nos oferece, pelo
que nos faz sentir, pelo que nos devolve. O amor verdadeiro, por outro lado, é incondicional.
Não exige reciprocidade para existir. Quantas relações que chamamos de amor
são, na verdade, trocas afetivas disfarçadas? Quantas vezes confundimos
dependência com entrega e carência com cuidado?
Segundo Powell, amar de
verdade envolve três movimentos essenciais: reconhecer o valor único e
incondicional do outro; perceber e buscar atender às suas necessidades; e
perdoar sem se aprisionar às suas falhas. O que poucos percebem é que esses
três movimentos precisam, antes de tudo, ser dirigidos a si mesmo.
Amar a si mesmo não
significa colocar-se acima dos outros, ignorar o próximo ou viver em função do
próprio umbigo. Significa oferecer a si mesmo a mesma atenção, o mesmo cuidado
e a mesma compaixão que oferecemos às pessoas que amamos. É olhar para o espelho
e conseguir dizer, com honestidade: “Gosto de quem eu sou. Não preciso ser
outro para ter valor.” Esse é um ato profundamente terapêutico e, para muitas
pessoas, revolucionário.
Mas há uma dimensão do
amor que vai além de si mesmo. Nossa existência ganha profundidade quando nos
tornamos capazes de agir em favor do outro não por obrigação, não por culpa,
mas por uma escolha genuína. O amor que transforma não é o que se declara em
palavras; é o que se revela na presença, no tempo oferecido e na disposição de
permanecer ao lado do outro em sua dor.
Assim, amar é, talvez, a
tarefa mais humana que existe. E ela começa, sempre, com a coragem de voltar o
olhar para dentro de si e reconhecer que você também merece esse amor.
Eudes Alencar
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