domingo, 21 de junho de 2026

O Amor que liberta

    Transparência e honestidade são a base de todo relacionamento autêntico. Relacionar-se exige investimento pessoal, de energia, de tempo e, sobretudo, disposição para renunciar a algo em favor de alguém. É justamente nessa renúncia consciente que reside uma das fontes mais profundas de felicidade, tanto para quem a realiza quanto para quem a recebe.

Todos os anos, pessoas se casam e, igualmente, divórcios acontecem. Esse cenário nos convida a uma reflexão honesta sobre uma questão importante: Será que todas as pessoas entendem a profundidade dos desafios e das responsabilidades que o casamento implica? Sem a pretensão de responder definitivamente a essa pergunta, diria que casar exige, de ambos, atitudes de desprendimento, renúncia, perdão e confiança, que constituem pilares fundamentais do amor verdadeiro. Nem todas as pessoas chegam a um relacionamento com essas capacidades plenamente desenvolvidas. Ainda assim, o mais importante é compreender que elas podem ser construídas ao longo do caminho.

Amar é, antes de tudo, um exercício pessoal e relacional. Falar em amor é, portanto, falar sobre relação. Não existe amor sem o outro, pois é o outro que torna possível o ato de amar. É justamente no namoro que temos a oportunidade de descobrir a beleza do outro em sua integralidade, com suas falhas e inseguranças, mas também com suas qualidades e valores. É nesse espaço de descoberta que percebemos se existe ou não a possibilidade de construir algo a dois.

No entanto, algumas características da sociedade contemporânea dificultam essa profundidade relacional. O consumismo, a superficialidade e o hedonismo, entendido como a busca do prazer pelo prazer, tornaram-se valores dominantes em nossa cultura e funcionam como obstáculos silenciosos à construção de relações autênticas. Em um mundo que valoriza o descartável, amar com profundidade tornou-se quase um ato de resistência.

Além disso, amar exige coragem. Coragem para sorrir e para chorar, para errar e para acertar, para atravessar tristezas sem abandonar o outro nem a si mesmo. Somos seres humanos, e a felicidade não é um estado permanente, mas uma coleção de momentos. Não somos perfeitos, porém carregamos em nós a capacidade de crescer continuamente. O amor é exatamente isso, um processo constante, inacabado e profundamente humano.

Quando amamos alguém de verdade, experimentamos algo surpreendente, que é a liberdade. Não é possível amar aprisionando o outro. Ao contrário, quanto mais amamos, mais desejamos que a pessoa amada viva plenamente sua condição de ser livre. É justamente aí que reside o equívoco de quem afirma que quem ama tem ciúmes. Na realidade, o ciúme é sinal de insegurança e de ausência de amor-próprio. Prefiro falar em zelo, que se expressa por meio do cuidado, da atenção e do respeito à singularidade do outro, sem a pretensão de controlá-lo.

Vale lembrar também que o amor é atemporal. O tempo cronológico, que medimos em meses e anos, não determina a profundidade de uma relação. Quem se relaciona há dez anos não necessariamente ama mais do que quem está junto há apenas alguns meses. O que define a qualidade do amor não é a quantidade de tempo compartilhado, mas a qualidade da presença, da escuta e do cuidado oferecidos cotidianamente.

Outro equívoco comum, especialmente entre os mais jovens, é acreditar que amar alguém significa fechar o coração para todas as outras relações. Muitas pessoas, ao iniciarem um namoro, abandonam amigos e afastam-se de vínculos importantes. Contudo, o amor verdadeiro não fecha fronteiras; ao contrário, ele as amplia. Quem ama de verdade também sabe cultivar a amizade, a fraternidade e o amor ao próximo. A fraternidade, aliás, é uma das formas mais puras de expressão do amor humano.

Por fim, amar não significa ausência de crises. Todo relacionamento atravessa momentos difíceis e conflituosos, e é justamente nesses momentos que a profundidade do amor se revela. Assim como o ouro se purifica nas altas temperaturas, o amor verdadeiro se fortalece nas adversidades. Trata-se de um amor incondicional que não impõe condições, não exige perfeição e não aprisiona. Pelo contrário, permite que o outro seja livre para viver espontaneamente sua singularidade, porque cada ser humano é único e irrepetível em todo o curso da história.

 Eudes Alencar

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